Arte na Arquitetura
“A rigor, Athos vai muito além das propostas de Léger porque suas obras são todas fortemente integradas e ancoradas na própria arquitetura que seria impossível imaginá-las dissociadas de seus respectivos edifícios ou vice-versa. Como pensar, por exemplo, o Teatro Nacional, em Brasília, projetado por Oscar Niemeyer, sem os relevos que revestem as duas empenas do edifício, ou o espaço magnífico do salão do Itamaraty, também do Oscar, sem suas treliças coloridas?”.

Trecho do texto de João Filgueiras Lima para o livro “Athos Bulcão”, 2001. Imagem: p.19.
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“O grande relevo aplicado sobre a fachada lateral do Teatro Nacional de Brasília, obra prima de Athos Bulcão, evoca o célebre “Primeiro lembrete aos senhores arquitetos”, de Le Corbusier, segundo o qual “a arquitetura é o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes reunidos sob a luz”. A luminosidade implacável e límpida de Brasília, que se esparrama através do ar seco do planalto sem se perder em refrações e reflexos pela quase ausência de névoa ou bruma, sem ser aprisionada pelas sutis concavidades topográficas criadas pelos vale e depressões suaves daquela região, esgarçando-se lá nas longínquas linhas do horizonte, faz retinir o jogo rítmico dos cubos e paralelepípedos que cobrem de cima abaixo o plano inclinado que perfaz a parede lateral do teatro de Oscar Niemeyer, ensinando-nos como pode ser complexa a noção de espaço, que ela não se aplica exclusivamente a espaços interiores, e que qualquer intervenção – cor, textura, matéria ou volume – obtém alterá-lo”.
Trecho do texto de Agnaldo Farias para o livro “Athos Bulcão”, 2001. p.35.
Athos Bulcão

“Athos Bulcão chegou em Brasília com a equipe de Oscar Niemeyer, adotou a cidade, e nela permanece produzindo trabalhos de integração da arte com a arquitetura. (…) Os azulejos e os painéis de integração fazem parte do acervo da humanidade, não só por estarem em Brasília – Patrimônio Cultural da Humanidade -, mas porque Athos Bulcão é um artista com grande sensibilidade para intervenções em espaços públicos, produzindo obras que se incorporam harmonicamente à paisagem e estão acessíveis a qualquer cidadão. Além de azulejos e painéis, pinturas, desenhos, objetos, máscaras, fotomontagens, cenários para teatro e artes gráficas fazem parte da arte de Athos Bulcão”.
Trecho do texto da Fundação Athos Bulcão para o livro “Athos Bulcão”, 2001. Imagem: p.5.
“Ao invés dos murais geométricos com os quais nos deparamos corriqueiramente, murais constituídos por módulos que se prolongam no outro de modo que um conjunto define uma forma fechada, a intuição de Athos Bulcão consiste em variar cada módulo de posição de tal maneira que ele é sempre outro sendo exatamente o mesmo”.
Trecho do texto de Agnaldo Farias para o livro “Athos Bulcão”, 2001. p.44.
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Painel da Igrejinha da SQS 307/308 – azulejos 15×15cm
“(…) Depois veio Brasília e para lá seguimos. Tempos difíceis de desconforto e solidão. E durante muitos anos ali ficamos, e o Athos a colaborar e enriquecer meus projetos com seu enorme talento. (…) Quantas angústias e inquietações Brasília nos deu, sempre a sobrar tempo para rir um pouco, falar da vida, imaginar que um dia ela seria melhor para todos”.
Trecho do texto de Oscar Niemeyer para o livro “Athos Bulcão”, 2001. Imagem: p.63.
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“(…) Composto integralmente por dois padrões alternados – sobre o mesmo fundo azul, o artista realizou em branco uma pomba estilizada e a estrela de Natal em preto – o resultado encanta pela combinação de movimentos – vertical e de irradiação – que ambas formas sugerem. A primeira experiência com mural figurativo em Brasília seria praticamente a última. Os inúmeros murais, painéis, relevos, componentes arquitetônicos que viriam a seguir, intervenções nas obras de vários arquitetos, entre os quais se destacam aqueles feitos para as obras principais de Oscar Niemeyer e João Filgueiras Lima, seriam abstratos-geométricos, o que bastaria para colocá-lo na linha de frente dos nossos maiores artistas de linha construtiva – Concretos e Neoconcretos -, com a vantagem que suas refinadas realizações atingiram a indústria e através dela disseminaram-se de um modo apenas sonhado pela maioria deles”.
Trecho do texto de Agnaldo Farias para o livro “Athos Bulcão”, 2001. p.43. Imagem p. 61.
a exposição de 2005
02 de junho de 2005, 19h: abertura da exposição Brasília Gravada – Galeria Parangolé do Espaço Cultural 508 Sul.

O texto de apresentação da exposição foi um presente do amigo Nicolas: uma grande felicidade para mim, uma vez que sua poesia contribuiu enormemente para a produção dessas gravuras.
sim foi a mão do criador
que gravou o desenho da borboleta
que é brasília
no chão do cerrado
terra vermelha
pele do planeta
sim foi a mão criativa de manoela afonso
que gravou a borboleta
que é brasília
no plano do sonho
textura frágil da imaginação
superfície do inconsciente
nicolas behr
Duas coisas intrigantes vêm acontecendo com essa poesia, ano a ano: tranformação e agregação enormes de sentido. O aprofundamento na pesquisa dos processos que levaram à série Brasília Gravada eleva tais palavras ao infinito. É maravilhoso, pois cada vez que as releio, elas me mostram coisas diferentes, fazem-me surpresas. Essa é uma das características da arte, não?
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Texto de divulgação da exposição:
“Brasília Gravada” é uma exposição de gravuras e monotipias da gravadora e arte-educadora Manoela Afonso. Com inúmeras carimbadas, que geraram cada um dos trabalhos, a artista faz uma reflexão sobre a sua relação com a cidade estabelecida em pouco mais de dois anos de convivência. As imagens expostas são composições que fazem alusão à geometria e ao ritmo simétrico de Brasília. Pequenos módulos gravados são as matrizes utilizadas para compor situações que remetem à horizontalidade, repetição de formas e que, sutilmente, levantam algumas questões sociais. Declara a gravadora: Brasília é uma cidade com características muito peculiares, não possui Largos ou praças de grande circulação de pedestres, sinto falta dos artistas espalhados pelos calçadões. Mas em dois anos de convivência, de repente me peguei tão inserida no seu contexto… Acho que Brasília e eu estamos finalmente entrando num entendimento.
A abertura da exposição foi no dia 2 de junho de 2005, às 19 horas, com a apresentação de jovens artistas locais, entre eles Chris de Oliveira e Raphael Martins (poesia), Daniel Dinelli (stickers), Francesca Felici (Roma/Brasília), Helyézer Gomes (cartun), Thiago Jorge (poesia), Tina Carvalho (performance), Victor Quaranta (poesia). O texto da exposição é uma poesia escrita por Nicolas Behr. Esse será também um espaço para a reflexão sobre a memória cultural da cidade, momento em que será destacada a importância cultural do Espaço 508 sul para jovens artistas do Plano Piloto e do Entorno, e a fundamental permanência da Biblioteca de Artes de Brasília dentro do Espaço. Pela segunda vez a artista faz questão de expor obras gráficas nas galerias do Espaço Cultural 508 Sul, com a finalidade de chamar a atenção para a importância desse espaço cultural e de sua Oficina de Gravura, existente há aproximadamente cinco anos. No ano passado, em agosto, a artista organizou a exposição “GG em Brasília”, que reuniu trabalhos de importantes gravadores brasileiros na Galeria Rubem Valentim.
A exposição contou com o apoio do Café Rayuela, do Ateliê Usina das Artes, da Biblioteca de Artes de Brasília, da Neoquanta Serviços de Energia e Meio Ambiente e dos fotógrafos Gabriel Romeo e Alexandre Ricciardi.
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Vista parcial da Galeria:

Não me lembro quantas gravuras expus nessa ocasião… creio que cerca de 25 a 30 trabalhos. Hoje eu seria mais econômica, justamente para fazer com que o próprio espaço de exposição também falasse algo de Brasília… dos espaços construídos e não-construídos, amplos, vazios mas cheios de sentido. Essa mostra foi importante para que eu chegasse à síntese; a lógica de alguns trabalhos foi abandonada, ao menos por enquanto, e o que se manteve para a produção atual foram elementos como módulo, repetição e horizontalidade.
Os trabalhos iniciais preenchem o espaço total do suporte através de repetições. Eles são fundamentais. Realmente fundam essa pesquisa gráfica. Sendo assim, para a compreensão dos caminhos adotados até aqui, provavelmente vou inserí-los no contexto da mostra relacionada à defesa dessa dissertação. Os dois principais exemplos são as gravuras “Bateu Asas e Voou…” e “Só Dois Candangos?” (imagens abaixo, respectivamente). Os títulos, nesse momento, estavam sob grande influência do espírito poético, irônico e jocoso de Behr.


*fotografias de Gabriel Romeo
Essas imagens me fizeram prestar atenção em algo que eu não havia percebido ainda: Brasília fala de forma muito parecida a pessoas e em tempos distintos. Quando conheci a poesia de Nicolas Behr, identifiquei-me imediatamente com suas angústias e percepções de uma cidade dos anos 70. Agora, com essas primeiras gravuras, descobri em Athos Bulcão um cúmplice na ludicidade da repetição modular em resposta a uma arquitetura com fortes elementos da arte construtivista (concreta e neoconcreta). Abaixo, fragmento de um dos painéis em azulejo de Athos Bulcão.

“A história da obra de Athos Bulcão confunde-se com a história do próprio país, com a construção da nova capital – Brasília – e das edificações que estão entre as mais belas da arquitetura brasileira. Intimamente ligada à arquitetura, sua obra estabelece relações formais e conceituais com ela, traçando a cor e a forma de maneira sensível e original. Sua arte está ao alcance do cidadão em seu trajeto cotidiano: nas esquinas, nos muros, nas paredes. Democrática e elegante. Pode ser luminosa e lúdica ou forte e introspectiva, tomando caminhos sempre renovados e intensos. A sua trajetória tão rica não se esgota. Merece muitos e cuidadosos olharres que sempre poderão captar o novo e o inusitado em sua arquitetura de cores e arranjos singulares. (…) Se a contemporaneidade fala pelas vozes da interdisciplinaridade, sua obra é uma obra contemporênea por excelência – linguagem de perfeita integração entre as artes plásticas e a arquitetura”.
Texto de apresentação do patrocinador (Petrobrás) para o livro “Athos Bulcão”, Fundação Athos Bulcão, 2001.