‘brasília, vê se toma uma atitude, pô’




se o congresso já precisava ser cancelado em 79, quem dirá agora… só implodindo mesmo.

do livro “Restos Vitais”, de Nicolas Behr, ps. 41, 42, 44, 50, 54
relações inconscientes
Em ‘Restos Vitais’, Nicolas reuniu seus 5 primeiros livros mimeografados, lá dos anos 70. Muito da poesia que ele produziu e que muito me influenciou foi produzida nesse período: a cidade de grandes espaços vazios, repetitiva, uma cidade-solidão era um de seus temas.
Fiquei surpresa em encontrar o poema abaixo disposto dessa maneira nas páginas dessa coletânea. Não sei se nos livrinhos originais foi feito da mesma forma, mas é interessante que para representar os espaços enormes e sem viva alma, produzi uma gravura similar a esse poema. Nós dois deixamos um grande espaço na folha de papel para evidenciar esse sentimento de vazio.
É maravilhoso identificar essas conexões! Como pode Nicolas, através da palavra e da visualidade, pensar nisso nos anos 70 e eu chegar à mesma solução com a gravura 30 anos depois? Deve ser porque Brasília aprendeu a falar. É uma cidade com o dom da comunicação. É capaz de contar tudo sobre ela mesma a todo aquele que ali chega e permanece por algum tempo.

nicolas bher, 1977

vazios urbanos – da série brasília gravada – manoela afonso, 2006 – gravura exposta na 3a. bienal olho latino. técnica: carimbo de borracha. papel: 39×27cm. mancha gráfica: 13,5×6cm. o módulo utilizado nesta gravura foi feito com base no desenho da catedral de brasília. o vazio que senti nos primeiros meses em que vivi na cidade me proporcionou não só angústia e estranhamento, mas também a sensação de estar diante da grandiosidade do encontro do horizonte do planalto com o céu imenso. aqui, o vazio gera também introspecção, meditação, quase como no interior solitário dos templos… talvez brasília tenha sido, um dia, tão silenciosa quanto uma catedral.
por falar em ambientes planos…
Estou aqui garimpando novamente, mas agora na agenda de 2005. Pouco mais de um ano já havia se passado desde a minha chegada… Brasília ainda era novidade, mas não causava mais aquela estupefação a toda hora. Através dos ex libris que eu fazia com os carimbos de borracha, conheci Jean Marconi, ficamos amigos e, numa de nossas conversas sobre Brasília e das minhas queixas sobre a planaridade da cidade, ele me contou sobre o livro Planilandia, país habitado por figuras geométricas… assim como Brasília. Cliquem na imagem acima e baixem o pdf.
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Em 2005 estive bem ocupada por conta da gravura: tinha um projeto aprovado no FAC para revitalizar o ateliê da 508 Sul e uma exposição individual na Galeria Parangolé. Fora outras coisas, como a Bienal da UNE em SP, projeto do GG na Graphias, Galeria Arte em Papel da AF, Oficina no Ateliê Livre de Porto Alegre, Feira do Livro de Brasília, Usina das Artes, Xiloucos, curso de extensão Arte Eletrônica… foi um ano especial e de muita produção, pensei muito na cidade de Brasília.
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Em 17/03/05 comecei minha produção para a exposição Brasília Gravada. Comecei a me apropriar das imagens da cidade que mais me marcaram desde que cheguei. O meu olhar estrangeiro foi capturado, é claro, pelos marcos escultóricos, monumentais e arquitetônicos da cidade. Esse olhar não tinha como não ser arrebatado pelos volumes espalhados nos espaços vazios… eu não estava habituada a essa conformação arquitetônica moderna.
A escultura em bronze com 8 metros de altura chamada ‘Os Guerreiros’, de Bruno Giorgi, foi a primeira imagem escolhida. A foto abaixo foi tirada em 4/4/4 – cabalístico, não? Candangos e o Crepúsculo – o céu de Brasília é algo maravilhoso… está sempre ali, infinito, para lembrar que nenhuma obra humana pode atingir essa grandiosidade sublime, nem mesmo as de Niemeyer.

Dela fiz um módulo e passei a compor imagens por repetições através de carimbadas (ao estilo burocrata). Fiz experimentos.


Nesse momento eu estava impregnada da poesia de Nicolas, que havia conhecido numa exposição da Biblioteca Demonstrativa de Brasília, acho que em 2004… era uma expo do lançamento do livro “eu engoli brasília”, de Carlos Marcelo.
http://www.bdb.org.br/frmConsultaEventos.aspx?SubArea=14
http://www.parkshopping.com.br/Imprensa/imprensa.asp?codmateria=264
Desde então, agreguei ao meu olhar, o olhar dele, mesmo porque aquilo tudo que li em sua poesia fazia muito sentido para mim naquele momento. O mais louco é que as poesias com as quais mais me identificava tinham sido escritas nos anos 70! Cheguei 30 anos depois e para mim o que ele dizia fazia muito muito sentido. Parece que Brasília tem essa capacidade de transportar o estrangeiro para essa atmosfera moderna dos anos 70 (os vazios, as repetições)… talvez por ser tombada, por ter um miolo arquitetônico rígido…
Creio que para Nicolas, talvez, a cidade tenha mudado muito e já não seja mais assim tão reta e vazia como eu a percebia naquele momento, em 2003.
fenda no tempo
O que vi de Brasília quando cheguei me lembrou muito o aeroporto do filme The Langoliers (Fenda no Tempo) - baseado num conto de Stephen King. Se alguém tiver curiosidade – e paciência (são duas fitas – ó eu no tempo do vhs ainda) para vê-lo, preste atenção no ’clima’ do lugar para onde vão as pessoas que somem… Brasília, de início, era aquilo ali para mim. Um imenso vazio, plano, silencioso.
http://www.bocadoinferno.com/romepeige/artigos/fenda.html






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