a pintura morre
“<…> Creio que a pintura morre, compreende. O quadro morre ao fim de quarenta ou cinqüenta anos, porque seu frescor desaparece. A escultura também morre. É uma idéia fixa minha, que ninguém aceita, mas não importa. Penso que um quadro ao final de alguns anos morre, como o homem que o fez; em seguida, isto é chamado de história da arte. Existe uma enorme diferença entre um Monet hoje, que é escuro como tudo, e um Monet sessenta ou oitenta anos atrás, quando era brilhante., quando foi feito. Agora, entrou para a história, é aceito como tal, e além do mais, tudo bem, isto não muda nada de qualquer forma. Os homens são mortais, os quadros também.
A história da arte é uma coisa muito diferente da estética. Para mim, história da arte é o que restou de uma época em um museu, mas não é necessariamente o melhor desta época, e, na verdade, pode ser até mesmo a expressão da mediocridade dela, porque as coisas belas desapareceram, o público não quis guardá-las. Mas isto é filosofia…”
CABANNE, Pierre. Marcel Duchamp: engenheiro do tempo perdido. São Paulo: Perspectiva, 2002. p. 117
Cidades

Esse desenho foi feito em Curitiba em 6/3/4. Estaria eu com saudade de Brasília?
Avaliando aqui as memórias, descobri que quando mudei pra capital federal eu ainda não havia terminado a pós – tinha que entregar o trabalho final, que tratava sobre questões da Arte Pública. Portanto, li muita coisa sobre “cidade” e, com certeza, os autores que escolhi influenciariam a minha relação com as cidades todas dali por diante. Agora, ao olhar alguns dos livros escolhidos como base teórica para minha dissertação, vejo que sempre estiveram presentes - eu é que havia esquecido deles… por isso essa minha surpresa.
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Foi mais ou menos nesse período que comecei a usar as borrachas como matrizes. Numa conversa com a Denise Roman, em Curitiba, ela me falou das borrachas, dos ex libris, das goivas minúsculas que o Luciano Mariussi fazia, dos rolos baratos na Celigraf e tudo mais… ela foi muito querida, me deu um monte de dicas e sugestões. Então, a partir daí fui pesquisar o mundo dos ex libris e comecei a gravar as borrachinhas. Acho que a primeira coisa que fiz com a borracha foi um olho, que seria o meu trabalho na exposição do GG que eu estava organizando na Galeria Rubem Valentim, no Espaço Cultural 508 Sul.


Nesse trabalho – que nem me lembro se dei título a ele ou não – já se revela a preocupação com a questão do suporte e de um múltiplo que não necessariamente estivesse representado pela tiragem. Então, nesse momento, eu queria uma gravura que saísse do papel e da moldura, que ganhasse o espaço da galeria e não me preocupava com cópias, muito menos iguais.

Mas como não pude carimbar direto na parede, tive que fazer diversas pequenas gravuras para colar na sua superfície sendo que, timidamente, também acabaram por invadir o chão, como se quisessem andar por ali e ocupar o espaço tridimensional.
No mês passado – maio/2007 – pude finalmente experimentar o carimbo direto na parede: estou terminando uma intervenção na sala da direção da Aliança Francesa. É um trabalho que faz parte da série Brasília Gravada, feito com um módulo de borracha e carimbadas em preto e prata, por enquanto.

A luz refletida não é devido a flash, e sim à iluminação natural vinda da janela, visto que a tinta prata a reflete (como nos vidros dos prédios ministeriais em Brasília).
O módulo representa um dos prédios dos ministérios, e a imagem composta por esse módulo repetido volta a ela mesma. É como se a repetição de uma única matriz compusesse a própria imagem que ela representa. Diferentemente do trabalho exposto em agosto de 2004, agora a gravura ganha espaço numa parede que não é de galeria – embora seja ainda de uma isntituição cultural.
A irregularidade da superfície da parede foi um elemento incorporado ao resultado.
Creio que uma das principais características dessa proposta com os carimbos de borracha seja a multiplicidade que gera uma obra única. Para muitos não é mais gravura, mas essa não é uma questão que me preocupa.


repetição do módulo
tadinha, tão jovem e bonita, mas com tantos problemas de memória!
Movimento pela manutenção do Espaço Cultural Oficina do Perdiz na 708/709 Norte, Brasília – DF.
A oficina foi fundada em 1966 por José Perdiz e a partir de 1988 abriu suas portas também para o teatro, a música e as artes plásticas
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“BRASÍLIA É JOVEM E, COMO TODO JOVEM, TEM DE TER BOA MEMÓRIA!
AJUDEM A CONSTRUIR A HISTÓRIA DA CIDADE ONDE VOCÊ NASCEU OU ESCOLHEU PARA VIVER!
PELA MANUTENÇÃO DO TEATRO OFICINA DO PERDIZ!!!!”
http://www.memoriasmalfeitas.blogspot.com/
Menos de 1 mês!
Em menos de um mês viajei para Curitiba. Isso quer dizer que realmente Brasília e eu estabelecemos um contato, num primeiro momento, difícil… eu me perguntava: “onde estão os artistas de rua? onde estão as praças, ruelas, bares na calçada? os cafés que ficam próximos a museus e sebos? o calçadão? o aconchego do centro da cidade?”
Cheguei em 12/10 e retornei em 08/11.
Fomos de carro: na ida dormimos em Ribeirão Preto - não tomamos chopp pinguin. Há quem diga que então não vimos Ribeirão… mas posso dizer que na praça central havia uma árvore enorme com uma quantidade de pássaros que nunca havia visto antes.

No dia 15/11 retornamos. Na volta paramos em Leme-SP. O carro cheio de tralha - lá em casa o pessoal me zoa e dizem que tenho Diógenes
Esse foi um período corrido: entrei para o GG, para o Xiloucos, participei de bazares com material em xilogravura, conheci a 508 Sul, o Mestre Zezito, a Margô, a Bia, Monica, Suzana, João, a galera da Biblioteca de Artes, procurei mil atividades e me meti em um montão de coisas. Em meio a tudo isso, Brasília e eu, o tempo todo.
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24/12 – Curitiba again.
Os endereços de Brasília
Uma das coisas que me desnorteou foram os endereços em Brasília. Até então as ruas para mim possuíam títulos, nomes e sobrenomes; tive que me acostumar com um raciocínio geográfico-matemático. No início não foi fácil… mas depois aprendi e infelizmente me perdi cada vez menos na cidade.

SQS415F303
SQN303F415
NQS403F315
QQQ313F405
SSS305F413
seria isso
um poema sobre brasília?
seria um poema?
seria brasília?
(nicolas behr)

Começamos a ver um canto pra morar numa rua qualquer feita de siglas e números. Não dava muita vontade de ir não… parecia assim, meio inóspito.
No dia 28/10 acabamos nos mudando para uma casinha no “interior”: ficava a uns 30 km da Esplanada dos Ministérios… havia apenas 1 ônibus que fazia esse trajeto – de hora em hora… o ponto de ônibus era a beira da estrada à beira de um barranco de terra vermelha. A estrada não tinha muito movimento. Ficar ali, à espera do ônibus, era algo realmente surreal: abaixo de mim uma estrada vazia; acima um céu azul com enormes nuvens fofas; aos ouvidos, uma sinfonia de insetos e pássaros… e o sol, impiedoso. Na imagem abaixo estão os horários do ônibus Mesquita/Jd. ABC – Rodoviária… e quem disse que isso funcionava?

O nome da rodovia era composto por letras e números (DF-140, km 3,8) mas o condomínio tinha nome (Santa Bárbara) e nossa rua, apesar da letra (E) chamava-se Rua das Amendoeiras – apesar de não ter amendoeira nenhuma. A casa era de número 4. Um paraíso, apesar dos 60km diários rodados numa estrada muitas vezes esburacada – mas que nos proporcionava ver um pôr do sol digno das savanas africanas (não gente, nunca estive na África, apenas vi pela televisão).
Era uma delícia: lá em casa tínhamos pé de mamão, limão, laranja, árvores, flores (que a Dona Diva – proprietária da casa – vigiava de vez em quando), corujas, calangos, Mimo, pássaros diversos… tá certo que nosso vizinho goiano era barulhento demais, fazia umas festas terrivelmente irritantes no final de semana, com som alto, gritaria, cachaça e 38 na cinta (como meus vizinhos goianos estão fazendo nesse exato momento, em plena terça-feira, aqui em gyn). Mas apesar desse detalhe, o restante foi 100%. Foi um momento importante de adaptação a uma cidade incomun… o vizinho goiano foi apenas um treinamento para depois lidar com algumas situações aqui em Goiânia.
*Procurando aqui por esses registros, vi que logo que cheguei procurei a UnB para contato com o ateliê de gravura e para um possível mestrado. Entrei logo num grupo de pintura, me mexi rápido! Olhando daqui, confesso que me surpreendi com tamanha animação.